Realidade Virtual e os metafísicos


Posted by: Jeferson Silva
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A ciência da computação possui uma relação muito próxima com a filosofia, em especial nas áreas computacionais que estudam questões como Inteligência Artificial e o problema da constituição do conhecimento e formação da inteligência.

Muito antes da revolução tecnológica, os filósofos já questionavam sobre a fundamentação do conhecimento e as questões sensoriais, bem como, os processos de formação do humano e sua intelectualidade.

Os filósofos, W.V. Quine, Rudolf Carnap, Karl Popper, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, Influenciaram o Desenvolvimento da lógica paraconsistente proposta pelo brasileiro Newton Carneiro Affonso da Costa.

Outra área que contribui na busca por respostas sobre o mistério da inteligência consciente e aborda o problema da fundamentação do conhecimento é a psicologia cognitiva, mas é na filosofia que encontramos o berço de toda discussão epistemológica, também chamada de teoria do conhecimento.

Em geral, dois problemas adquirem destaque, o problema das outras mentes e o problema da autoconsciência.

Basicamente o problema das outras mentes consiste em como determinar se outra coisa além de nós mesmos é dotada de consciência ou se é apenas uma simulação ilusória, um bom exemplo deste problema é o teste de Turing, onde um computador simula inteligência e conversa com os integrantes ao nível de iludi-los.

Já o problema da autoconsciência trata da busca pela compreensão de como é possível uma contínua apreensão da realidade onde o indivíduo possui percepção de seu próprio estado e atividade.

Entender a profundidade e as conseqüências destas questões é de grande importância na Inteligência Artificial devido proposta de construção da Inteligência, no caso da psicologia cognitiva o interesse consiste no ganho terapêutico e para a filosofia este é um tema ligado a fundamentação do próprio saber filosófico.

Entre as primeiras respostas sobre a origem e fundamentação do conhecimento, encontramos Platão com a tese do mundo das idéias e o mundo sensível. Para Platão o conhecimento era acessado pelo humano em um mundo não material, além da física, metafísico.

Os filósofos cristãos também adotaram esta postura como resposta ao conhecimento, onde através de Deus e mediado pela alma o indivíduo manifesta e adquire seu conhecimento. René Descartes propôs que a alma age no corpo através da glândula pineal.

Para estes filósofos, cada um com suas particularidades, o consenso se constituiu no fato de existir dois aspectos distintos responsáveis pela inteligência, são eles; a matéria e a consciência metafísica.

O pensamento e a racionalidade nesta forma de percepção de mundo é algo misterioso e não capturado pela física. Os adeptos desta corrente de pensamento fundamentam suas afirmações com base em um determinismo místico, onde o agente regulador de qualquer coisa existente possui como essência algo inacessível ao racional e a realidade física é simples ilusão.

Para o filósofo metafísico Schopenhauer, somente a intuição, entendida por ele como fenômeno metafísico, seria capaz de acessar mesmo que brevemente, a realidade em si mesma.

Este modelo de raciocínio é frutífero quando o assunto é de caráter especulativo e proporciona respostas coerentes com a imaginação de cada indivíduo, no entanto, não auxilia no tratamento dos problemas práticos da computação, psicologia cognitiva ou da filosofia pragmática proposta por Wittgenstein.

Torna-se necessário adotar uma nova estratégia de raciocínio em resposta ás dificuldades que a metafísica parece não dar conta.

A idéia de raciocínio estratégico é a base na postulação do conhecimento como evento cognitivo. Se para os metafísicos é necessário descobrir a verdade última das coisas e acessar a realidade em si mesma, para os cognitivistas o que parece importar no cérebro é assumir estratégias capazes de responder da melhor forma possível sobre um determinado problema, neste sentido, a forma de percepção de mundo é radicalmente diferente, valorizando uma postura pragmática, focada no resultado e uso de um determinado raciocínio e não na busca pela realidade última ou verdade universal.

Um exemplo popular sobre esta questão pode ser encontrado no livro Brainstorms de Daniel Dennett onde este descreve uma pessoa jogando xadrez com um computador e aponta para duas ocorrências distintas, a primeira é o indivíduo tratar o computador como uma máquina incapaz de intencionar vencer o jogo, a outra, é atribuir estrategicamente ao computador uma intenção de ganhar o jogo.

É consenso que uma máquina não possui intenção legítima, mas ao atribuir esta qualidade ao computador o jogador humano poderá prever com maior facilidade qual a próxima jogada da máquina e assim buscar sua possível vitória. Este é um exemplo de um raciocínio estratégico focado no uso e no resultado.

Este conceito chamado de raciocínio estratégico vai sendo construído gradativamente na história da evolução tecnológica.

Logo depois de Descartes, o matemático e filósofo Leibniz constrói um mecanismo capaz de somar e subtrair através de engrenagens interconectadas.

Um século depois o fisiologista Julien De La Mettrie escreve o livro Homem-Máquina defendendo a idéia de que a atividade vital não tinha origem em alguma substância metafísica e sim na estrutura física e organizacional da matéria.

Inspirado nesta ideia, Jacques de Vaucanson projetou diversas estátuas com mecanismos pneumáticos, entre elas, uma capaz de tocar flauta e um ganso que simulava beber, comer e passear pela lagoa.

A construção de máquinas com características inteligentes, gradativamente contrariam a perspectiva metafísica.

O matemático Charles Babbage, estudando as capacidades mentais criou um mecanismo capaz de executar operações básicas de lógica e aritmética. No século vinte com a corrida espacial e a evolução da eletrônica, surgiram os computadores e com eles um novo conceito chamado de realidade virtual.

A realidade virtual trata da comprovação da existência de informações ou manifestações que não são físicas. Neste sentido o termo “virtual” é algo que fisicamente não existe embora não esteja além da física, pois sua manifestação é conseqüência da interconexão de mecanismos físicos.

Quando alguém movimenta o cursor do mouse e abre uma pasta no computador ou navega no Second Life, está interagindo com uma manifestação virtual através do computador.

É importante observar que esta manifestação não é uma ilusão e sim uma forma estratégica de interpretação de um indivíduo sobre um conjunto de informações.

Talvez aqui esteja o equívoco dos metafísicos, atribuir a uma realidade virtual o status de essência além da física.

É fácil mudar a seqüência das coisas, em vez de colocar a manifestação virtual como uma conseqüência do físico, se colocou a física como uma manifestação de uma essência vital metafísica e com isso surgiu a inevitável existência de dois mundos.

O conceito de amor pode ser tratado como algo metafísico, no entanto, este e outros conceitos chamados metafísicos, parecem corresponder melhor se entendidos como manifestação virtual da fisiologia humana.

Esta idéia de uma perspectiva física de mundo parece estar bem representada na obra investigações filosóficas de Ludwig Wittgenstein, onde ele aborda as consequências entre uma linguagem privada e uma linguagem de caráter público, apontando para os equívocos da linguagem e a impossibilidade de uma metafísica como meio de construção do conhecimento.

Uma interpretação possível das investigações filosóficas é o fato da metafísica ser originariamente de caráter privado, pois apela para uma interpretação interna ao individuo que carece de verificação, enquanto a virtualização é um fenômeno de externalização do físico, assumindo desta forma um caráter público que atende ao conceito de falseabilidade de Popper.

O raciocínio estratégico ganha melhor representação na teoria das espécies de Darwin, onde é constatado que a proliferação da vida ocorre em maior escala nos organismos que se adaptam com flexibilidade ao meio em que são expostos.

Neste sentido, contextualizar um raciocínio com base na melhor possibilidade de sucesso parece ser mais produtivo que a imposição de uma realidade determinada por conceitos rígidos.

Aparentemente o conceito metafísico foi uma resposta estratégica em um ambiente carente de informação e misterioso, aos intelectuais que se afirmam na postura metafísica, parece faltar exposição de um melhor esclarecimento sobre como esta postura pode estrategicamente continuar contribuindo na evolução do conhecimento compartilhado, ao estilo das investigações filosóficas onde Wittgenstein argumenta:

"Suponhamos que cada um tivesse uma caixa e que dentro dela houvesse algo que chamamos 'besouro'. Ninguém pode olhar dentro da caixa do outro; e cada um diz que sabe o que é um besouro apenas por olhar o seu besouro. Poderia ser que cada um tivesse algo diferente em sua caixa." (WIITGENSTEIN, 2005, § 293).

Neste sentido, o uso de uma linguagem privada – Intuição metafísica - inviabilizaria os jogos de linguagem, impossibilitando a comunicação uma vez que o significado de nossas expressões é proveniente do restante do nosso modo de ação.

O argumento de Wittgenstein sobre a impossibilidade de uma linguagem privada valoriza o princípio de verificação proposto por Schlick e o conceito de falseabilidade de Popper.

Esta postura pragmática vai ao encontro do conceito epistemológico de utilitarismo, este, entende como critério de conhecimento toda ação que privilegia o maior número de pessoas possível, caracterizando neste sentido um conhecimento focado na interação social.

Sigmund Freud bem como a psicologia cognitiva também parece adotar frente ao conhecimento, uma postura que privilegia o raciocínio onde a justificação reside no resultado e a subjetividade manifesta-se subordinada em certo sentido ao aparato físico, semelhante ao fundamento tecnológico da realidade virtual.

Adotando como critério a justificação que reside no resultado, aceitar o fenômeno como virtual parece responder melhor a exigência epistemológica que a teoria metafísica, em outras palavras, do ponto de vista tecnológico é mais provável que os fenômenos sejam manifestações de interconexões materiais e não mistérios inexplicáveis que ocorrem além da matéria.


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