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Teoria do conhecimento

Autor: Jeferson Luís da Silva

A necessidade de formular uma teoria sobre o conhecimento não é um tema novo, seus primeiros registros podem ser encontrados no inicio da filosofia grega, em especial, na obra teeteto cuja autoria é atribuída ao filósofo Platão, por volta do século quatro antes de cristo. Alguns séculos depois, (séc. I a.c.) questões relacionadas ao conhecimento motivaram o surgimento da filosofia cética empirista, registrada inicialmente na obra do filósofo Sexto Empírico.

Mas é no século dezessete que a teoria do conhecimento se torna central nos debates filosóficos tendo em vista a crescente liberdade de expressão e a necessidade de qualificar o conhecimento científico emergente.

A teoria do conhecimento, também denominada de epistemologia, tem como principal objetivo apontar os limites do conhecimento científico, suas fontes e justificações. A definição padrão vigente, sobre o que pode ser considerado conhecimento parte da afirmação que este é uma crença verdadeira justificada, no entanto, a subjetividade interpretativa de cada indivíduo, associada à natureza da justificação requerida para crença verdadeira se transformar em conhecimento, acaba por proporcionar sérias dificuldades.

O tipo de conhecimento que se pretende entender na epistemologia é aquele de caráter proposicional onde uma análise da proposição busca pelas condições necessárias e suficientes que precisam ser satisfeitas para validar um determinado conhecimento.

A natureza subjetiva em torno da justificação sobre o que é conhecimento promove uma série de propostas, algumas concorrentes, onde o conhecimento é definido de diferentes maneiras. Independente da proposta elaborada, em algum momento torna-se necessário enfrentar os argumentos céticos, uma vez que estes argumentam sobre a impossibilidade da justificação do conhecimento. Neste sentido, o ceticismo argumenta não existir condições de possibilidade para uma justificação capaz de garantir uma definição incontestável sobre o que é conhecimento.

Buscar responder ao cético, enfrentando seus argumentos, torna-se um dos desafios aceitos pelas diversas propostas existentes na epistemologia e com isso, o ceticismo assume importante papel na constituição da epistemologia uma vez que esta se configura pelos esforços de resposta aos argumentos céticos.

A perspectiva aplicada pelo cético pirronico consiste na observação da impossibilidade da apreensão da realidade em si mesma, sua essência ou verdade incontestável, neste sentido, conhecer a realidade ou a verdade absoluta dos fenômenos não é possível e qualquer afirmação sobre estes fatos se constitui em uma crença cuja justificação é especulativa, a denominação cética para esta postura, onde se assume com convicção a possibilidade de apreensão da realidade através de uma justificação especulativa, em geral de caráter metafísico, é chamada de dogmatismo.

A proposta cética radical para o tratamento sobre a realidade em si mesma é a suspensão do juízo, abrindo-se mão da justificação e do conceito de verdadeiro ou falso e das interpretações metafísicas dos eventos. Existe também uma vertente cética menos radical conhecida como ceticismo acadêmico, cuja proposta consiste em aceitar as proposições ou teorias que são mais prováveis ou consensuais. No entanto, embora exista a condição de possibilidade para uma especulação do mais provável, esta carece de uma justificação infalível não sendo possível promover a certeza de um determinado evento ou fenômeno.

Podemos estar diante das melhores evidencias e mesmo assim promover o erro, afirmam os céticos. Neste sentido, uma das perguntas céticas direcionadas a epistemologia consiste em indagar como é possível uma justificação das pretensões de conhecimento.

Locke responde ao ceticismo admitindo uma postura fundacionalista baseada nos sentidos, estes permitem fundamentos para crenças prováveis e não para crenças certas, na prática, tudo que precisamos é da probabilidade.

Segundo Locke, nenhum cético conseguiria sobreviver no mundo real ignorando a evidencia dos sentidos, para este filósofo, o ceticismo sobrevive apenas como possibilidade teórica.

Outra possível resposta cética é encontrada na obra Critica da razão pura de Immannuel Kant, o autor aponta para os limites do conhecimento, defendendo o fato da mente humana ser constituída de tal maneira que impõe certas interpretações dos dados sensíveis transformando estas interpretações em experiências espacialmente estruturadas no tempo. Neste sentido, uma resposta para o cético consiste na descrição sobre o modo como a experiência humana se constitui e Kant aponta para perspectiva de David Hume quando este afirma sobre o fato da natureza humana se constituir de tal modo que não é possível deixar de se ter crenças, para Kant as crenças se justificam por serem características constituintes de toda e qualquer experiência.

Assim como Locke, Kant assume uma postura fundacionalista em resposta aos céticos. O fundacionalismo consiste em admitir uma crença sob a qual temos conhecimento seguro que fundamentará a evolução do argumento.

Outro exemplo de uma postura fundacionalista pode ser observado em René Descartes que afirmou após aplicação metódica da dúvida, ter encontrado uma categoria de crença segura baseada na evidência irrevogável de seu slogan “penso, logo existo”.

Além da resposta fundacionalista podemos citar entre outras, a postura verificacionista proposta por Schlick que responde ao cético afirmando que toda sentença declarativa deve ser verificável. Esta tese afirma que só podemos falar com algum sentido sobre uma realidade passível de verificação.

O verificacionismo é uma influência epistemológica visível na obra Investigações Filosóficas de Ludwig Wittgenstein, principalmente em seu argumento sobre a impossibilidade de uma linguagem privada.

Para Wittgenstein, aquisição de conhecimento está associada ao domínio de uma técnica no uso da linguagem, que por sua vez, ocorre através da compreensão das regras que compõem as conexões gramaticais.

O ato de seguir uma regra não é entendido como um agir uniforme, já que as regras não são fixas, variando de acordo com as práticas dos grupos sócio-culturais que as determinam, onde, a constituição gramatical tem sua estrutura na obediência de tais regras que, guiam os falantes no agir cotidiano.

Neste sentido, seguir uma regra é uma prática social. E por isso não se pode seguir uma regra ‘privatim’, porque, do contrário, acreditar seguir uma regra seria o mesmo que seguir a regra.” (WIITGENSTEIN, 2005, § 202).

A legitimação de que alguém age conforme a regra é possível se adotarmos como critério a capacidade deste indivíduo em expressar o emprego da mesma.

O conceito de jogo de linguagem nas Investigações Filosóficas é introduzido por Wittgenstein no §7, entendido como sendo o jogo pelo qual a criança aprende a língua materna em um processo de denominação e repetição de palavras pronunciadas.

Os jogos de linguagem são múltiplos e variados e não caracterizam uniformidade lingüística, tendo como aparente alguns nuances familiares.

Para Wittgenstein é preciso pensar no estudo da linguagem em partes contextualizadas pelos seus respectivos jogos de linguagem, onde, os problemas de comunicação ocasionados pelo confronto de jogos diferentes podem ser diluídos.

Qualquer recurso a estados mentais ocultos ou a prática de uma linguagem privada, em nada contribui no processo de compreensão gramatical por não serem passiveis de expressão comunitária.

Para Wittgenstein, o equivoco na admissão da existência de uma linguagem privada ocorre devido ao fato da concepção agostiniana da linguagem ter como pressuposto que, ao saber o que a palavra designa compreende-se e se conhece todo o seu emprego.

Em uma linguagem privada, o significado do nome de uma sensação é fixado através de uma regra particular que estabelece mediante uma definição interna o critério de correção para o uso do significado.

Wittgenstein argumenta sobre a impossibilidade de uma linguagem privada uma vez que o critério de correção para o uso do significado precisa ocorrer em concordância com os demais membros de um grupo, na práxis social.

Proposições de sensação na primeira pessoa do singular representam ou descrevem experiências que não podem ser verificadas uma vez que o critério de correção e identificação é privado.

Em um dos esclarecimentos sobre este assunto, Wittgenstein argumenta:
"Suponhamos que cada um tivesse uma caixa e que dentro dela houvesse algo que chamamos de 'besouro'. Ninguém pode olhar dentro da caixa do outro; e cada um diz que sabe o que é um besouro apenas por olhar o seubesouro. Poderia ser que cada um tivesse algo diferente em sua caixa." (WITTGENSTEIN, 2005, § 293)

Neste sentido, o uso de uma linguagem privada inviabilizaria os jogos de linguagem, impossibilitando a comunicação uma vez que o significado de nossas expressões é proveniente do restante do nosso modo de ação.

Uma das possíveis interpretações ao se entender o conhecimento como resultado do uso de uma linguagem através do ato de seguir uma regra consiste no fato da práxis ser conseqüência vivenciada e não uma formulação racional imaginativa.Desta forma, vivenciar a perda de um ente querido, uma situação de doença, uma sensação agradável de felicidade ou qualquer evento de conseqüência prática, parece ser bem diferente do ato de formular intelectualmente tais eventos e suas conseqüências.

Argumentar intelectualmente através de uma racionalidade imaginativa sem a vivência das conseqüências práticas do problema analisado, sugere resultados distantes da realidade, entendendo realidade como sendo aquilo que é realizado, que ocorre na prática. Esta idealização afastada do que é realizado parece fomentar a necessidade da imposição cultural em um discurso centrado no “dever ser”, onde a subjetividade e complexas características do humano são negadas em favor de uma razão pura e libertadora, devendo o mundo ser construído à sua imagem.

Wittgenstein se opõe ao movimento filosófico normativo e desloca o critério de conhecimento do campo racional teórico imaginativo para o campo da verificação e da práxis social, neste sentido o conhecimento tem como fundamento uma determinada forma de vida onde a razão é construída na soma das complexidades do humano através das relações sociais, nas diversas ocorrências vivenciadas onde o critério de verdade ocorre pela verificação contextualizada e descritiva dos fatos.

A solução proposta por Wittgenstein para uma prática filosófica conectada com a realidade consiste na técnica de reflexão baseada na descrição do uso da linguagem. Ao descrever as diversas formas em como uma determinada linguagem é usada, torna-se possível uma reflexão que corresponda ao que é realizado, praticado.

O argumento de Wittgenstein sobre a impossibilidade de uma linguagem privada ou de uma razão teórica imaginativa, tem como fundamento um tipo de pragmatismo que fomenta a necessidade do uso de um principio de verificação semelhante ao que foi proposto por Schlick.

Outra questão importante na perspectiva do pragmatismo de Wittgenstein consiste na negação da possibilidade de uma fundamentação racional do conhecimento, teoria epistemológica.

É possível escolhas racionais, no entanto, fundamentar tais escolhas em uma ciência epistemológica é algo inconcebível para o autor.

A vertente pragmática inicia com Pierce e James tendo como principal afirmação o fato do significado de um conceito ser determinado pelas conseqüências práticas de sua aplicação, em outras palavras, pelo seu uso.

Pierce se opõe a perspectiva epistemológica cartesiana e defende que o conhecimento deve se dar através do método de observação e raciocínio contemplando uma postura científica apoiada em aspectos da experiência e o investigador precisa estar pronto para se desfazer de suas crenças quando a experiência se mostrar contra elas.

Tanto Pierce quanto Wittgenstein e James, cada um ao seu modo, colocam a produção de conhecimento e o critério de verdade no âmbito interno das relações sociais e entendem a verdade como aquilo que foi ou pode ser verificado.

Uma das diferenças entre eles consiste no fato de Pierce entender como verdade o resultado de uma teoria hipotética ideal, adquirida através da postura científica enquanto James foca suas interpretações na práxis, tendo como critério de verdade o princípio de intencionalidade submetido a uma natureza de sentido passional.
O pragmatismo é uma postura que fomenta uma ética de caráter utilitarista, esta por sua vez consiste na admissão da felicidade como bem supremo do homem. Neste sentido, as ações praticadas devem ser capazes de trazer a máxima felicidade para o maior número possível de indivíduos.

O utilitarismo está assentado nos princípios de consequencialismo, bem-estar, agregação, otimização e universalismo. A maior crítica ao utilitarismo consiste no aspecto excludente ou sacrifical onde uma determinada minoria é sacrificada pelo bem da maioria.

Acredito que o tema conhecimento é melhor entendido quando consideramos as questões pertinentes ao comportamento humano, em especial a subjetividade e as bases motivacionais encontradas na construção de qualquer convicção. Assumindo a perspectiva de Rorty, onde o pragmatismo não constitui uma teoria ou escola metódica podendo ser considerado como uma postura em face ao tema do conhecimento, parece que a postura adequada para o debate sobre o conhecimento, consiste em focar no sujeito cognoscente e sua capacidade de comunicação.

Bibliografia:
HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. ed. São Paulo, Martins Fontes, 2003. [+]Consultar editora
MOSER, Paul. K.; MULDER, Dwayne H.; TROUT, J. D. A teoria do conhecimento. ed. São Paulo, Martins Fontes, 2004. [+]Consultar editora
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. ed. São Paulo, Vozes, 2005 [+]Consultar editora